Entrevistas |
As eleições 2006 estão chegando
Marcelo Soares, antes de atuar na ONG Transparência Brasil, trabalhou na Folha de São Paulo e na Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo. Há cinco meses na Instituição, o jornalista é responsável por dois projetos: “Deu no Jornal” e “Excelências”. O primeiro é um banco de dados de notícias sobre corrupção, publicadas em 63 jornais e revistas e classificadas por assunto; já o “Excelências” é um espaço que reúne informações sobre os candidatos às Eleições 2006. De acordo com Marcelo, “existe muita informação pública na internet que pode permitir a um cidadão atento à política e à informática "espiar pela fechadura" do exercício do poder. Mas esses cidadãos que reúnem as duas características são poucos e a informação está geralmente dispersa". E organizar informações de interesse público é um dos principais trabalhos da Transparência Brasil, que desde 2000 atua no combate à corrupção. Nesse sentido, o voto consciente é uma ferramenta poderosa. A seguir, Marcelo Soares fala sobre esse assunto, confira:
Portal do Voluntário HSBC - O que o eleitor deve levar em conta na hora de decidir o voto?
Marcelo Soares - Isso é bastante pessoal. Para uns, pode interessar o fato de ele atender sua região, ou sua profissão. Se ele já teve mandato, isso pode ser checado na internet por meio das emendas ou dos projetos apresentados. Para outros, pode interessar o fato de ele não ter sofrido acusações. Isso pode ser checado na internet, em arquivos de notícias, como o "Deu no Jornal", ou nos sites dos tribunais. Para outros, pode interessar quem doou para a campanha do candidato anteriormente - um vegetariano, por exemplo, pode achar que um candidato que recebeu dinheiro de um frigorífico não merece seu voto. Isso pode ser checado também na internet, no TSE ou no projeto "Às Claras". Nenhum dos critérios acima exclui partido algum. Se o seu critério passa pelas acusações, lembre que todos os partidos têm candidatos que já foram acusados de alguma coisa e outros que nunca foram acusados de nada. Quem sabe, se você não quiser votar naquele candidato popular que responde a ações na Justiça, você não encontra no mesmo partido um candidato menos conhecido, mas preparado? O critério de cada um é tão sagrado quanto suas escolhas políticas. É isso que garante a diversidade democrática. O que garante que esse critério seja exercido com sabedoria é informar-se muito bem antes de votar.
Portal do Voluntário HSBC - Para as pessoas que não têm a menor idéias em quem votar, como iniciar a pesquisa? Que fontes podem ser consultadas?
Marcelo Soares - Jornais, revistas, internet, amigos... todas as fontes são válidas. Criamos o serviço Excelências para reunir algumas informações públicas sobre os deputados federais que buscam a reeleição, mas ele é limitado. Você pode pesquisar nos arquivos de jornais o que já saiu sobre seu candidato, pode ir atrás do site de onde ele já teve mandato para ver o que ele já fez, pode perguntar para conhecidos o que sabem sobre ele. Pode até conversar com eles. Mas tenha um olho crítico. É possível verificar o que ele diz? Ele fala coisas concretas e possíveis ou é papo furado? Tem que avaliar.
Portal do Voluntário HSBC - Muitos eleitores pensam em votar em branco ou nulo. Quais são as conseqüências dessas escolhas?
Marcelo Soares - Como manifestação pessoal e intransferível de descontentamento, é válido. Significa de certa forma um "nenhuma das anteriores", o que não deixa de ser um ponto de vista relevante. Como instrumento de participação cívica, porém, é um tiro no pé. O que elege alguém são os votos válidos. Quanto maior a quantidade de votos brancos e nulos, mais peso têm os votos válidos. Assim, quando a gente vota nulo por não querer votar nos favoritos, na verdade o que acontece é que os percentuais deles acabam engordando. Sempre vai haver quem vote nos candidatos que você não gostaria que sejam eleitos, seja pela popularidade ou por outros expedientes. O negócio é se informar muito bem e escolher bem.
Portal do Voluntário HSBC - Para aqueles eleitores que já definiram o voto, ainda é necessário avaliar a escolha?
Marcelo Soares - O tempo inteiro. Antes e depois da eleição. O voto é um cheque em branco. Eu, pessoalmente, ficaria de olho em cada movimento de alguém pra quem eu tenha dado um cheque em branco.
Portal do Voluntário HSBC - Quais critérios utilizar para avaliar as informações veiculadas pela mídia sobre os candidatos?
Marcelo Soares - O primeiro, e mais importante, é ler criticamente todo o noticiário. Ler criticamente não é o mesmo que ler achando que é mentira. Significa observar de onde vem a informação, o que ela diz concretamente, se eventuais acusações são documentadas. O que mais me incomoda na imprensa - e não só em época de eleição - é a praga do declaratório. Ou seja, a lógica de que notícia é qualquer coisa que um candidato diz. Eles dizem o que querem e os repórteres simplesmente transcrevem, sem maior checagem. Isso acontece muito quando eles falam em números. Candidato adora números. Jornalistas também, mas poucos têm a disciplina de verificá-los. Às vezes, a notícia é o adjetivo imputado por um candidato a outro. Informação zero. Mas muitas vezes os jornais fazem boas reportagens sobre política, bem apuradas, documentadas. Essas reportagens costumam causar menos impacto que os adjetivos, mas contêm mais informação importante para avaliar os candidatos. No tocante ao noticiário sobre corrupção, costumo destacar esses textos no blog do Deu no Jornal na seção "O Melhor do Jornalismo".
O segundo, tão importante quanto o anterior, é evitar o espírito de torcida. Esse espírito tem sido uma praga nos últimos tempos, a julgar pelo tom dos comentários que se lê nos blogs. É importante escolher bem um candidato, mas o espírito de torcida leva ao acriticismo. Se algo de negativo sobre seu candidato favorito foi publicado, não leve para o lado pessoal. Não é com você, é com ele. Aliás, leia com cuidado o que foi escrito. Está documentado? Se é uma denúncia, há processo aberto? Você pode verificar por si próprio o que é dito? Se o seu candidato for eleito, meus parabéns. Mas também evite o espírito de torcida. Repito, o voto é um cheque em branco. Fique de olho no que ele faz com esse cheque que você deu a ele.
O terceiro: não tome ao pé da letra o que os candidatos dizem sobre si próprios. Eles se adoram. Procure saber o que eles não dirão sobre si (e o Excelências ajuda nisso, no caso dos que são deputados federais hoje). Tampouco tome como verdade o que é opinião. Procure ler - e exija dos jornais que compra - informações concretas. Questões de fato. Foi ou não foi? É ou não é? Aceitou ou não aceitou? O jogo do declaratório, de que eu falei antes, tem o péssimo efeito de tratar questões de fato como questões de opinião. Fica o dito pelo não dito e abre espaço pra que nada seja feito.
Portal do Voluntário HSBC - No contexto atual da sociedade, qual é o real poder do voto do brasileiro?
Marcelo Soares - No mínimo, é o poder de tentar tirar o emprego de políticos que usam mal o cheque em branco que lhes foi dado em eleições anteriores.
Portal do Voluntário HSBC - Você acha que os cidadãos têm consciência da importância do voto para o desenvolvimento do Brasil?
Marcelo Soares - Não sei. Gostaria que tivessem mais. Não só os cidadãos que votam, mas também e principalmente os cidadãos que são votados.
Leia também as entrevistas anteriores.
topo voltar
Comentários:
| Não foram encontrados registros. |
|
|